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sábado, 21 de outubro de 2017

A Fazenda - Resenha


"Não, não matei.
Vá a qualquer escola, eu o desafio, a qualquer lugar do mundo, e você encontrará uma criança infeliz. Sobre essa criança infeliz haverá boatos maliciosos. Esses boatos consistirão basicamente em mentiras. Mas não importa que sejam mentiras, porque quando você mora em uma comunidade que acredita nessas mentiras, repete essas mentiras, as mentiras se tornam reais - reais para você, reais para os outros. Você não tem como escapar delas, porque não é uma questão de provas, é maldade, e maldade não precisa de provas. A única escapatória é desaparecer dentro de sua cabeça, viver entre seus pensamentos e suas fantasias, mas isso só funciona por um tempo. O mundo não pode ficar para sempre do lado de fora. Quando começa a entrar, você precisa fugir de verdade - você faz as malas e foge".

"A Fazenda", de Tom Rob Smith - o mesmo autor de "Criança 44", Editora Record, estava parado na minha estante há um milhão de anos. Esse mês resolvi desencalha-lo.
Não sabia muito bem o que esperar do livro. Sei que "Criança 44" tem ótimas críticas, então resolvi me aventurar na "A Fazenda".
O livro é denso, alguns momentos, cansativo, mas a história é boa. Talvez pudesse ser um pouco mais trabalhada, desenvolvida, mas no geral, fluí.
Daniel acreditava que seus pais desfrutavam de uma rotina pacata e bucólica - adoro essa palavra - após trocarem a Inglaterra por uma fazenda na Suécia. Mas um telefonema vira seu mundo de cabeça para baixo.
Ligações simultâneas de seu pai, e em seguida de sua mãe, colocam ele em uma situação inusitada, um passado desconhecido se coloca à prova e desencadeia uma história que levará ele à um submundo perigoso, dolorido.
Dividido entre duas versões de uma mesma história, e indeciso sobre em quem, e no que acreditar, Daniel se torna, ao mesmo tempo, juiz e júri do relato desesperado de sua mãe, que traz à tona segredos do passado, mentiras e a possível conspiração para encobrir um crime que envolve o próprio pai.
Apesar de algumas coisas bem óbvias, o final foi interessante. Fui e voltei inúmeras vezes em meus palpites, mas em um deles estava certa. Ufa!

Cláu Trigo

terça-feira, 17 de outubro de 2017

As Horas - Continua Não Funcionando


"Tinha parecido o começo da felicidade, e Clarissa ainda se choca, trinta anos depois, quando percebe que era a felicidade; que a experiência toda repousa num beijo e num passeio, na expectativa de um jantar e de um livro. O jantar já foi esquecido; Lessing foi há muito suplantada por outros escritores; e até mesmo o sexo, depois que ela e Richard chegaram a esse ponto, foi ardente mas canhestro, insatisfatório, mais gentil que passional. O que continua iluminado na mente de Clarissa, mais de três décadas depois, é um beijo ao entardecer, num trecho de grama seca, e um passeio em volta do lago, com mosquitos zumbindo no ar que escurecia aos poucos. Permanece intacta aquela perfeição singular, perfeita em parte porque parecia, na época, tão claramente prometer mais. Agora sabe: aquele foi o momento, bem ali. Não houve outro".

"As Horas", de Michael Cunningham, Editora Companhia das Letras, é uma re-leitura de "Mrs. Dallowaynos dias atuais.
Como fui uma daquelas pessoas que não foram "envolvida" pela história de Virginia Woolf, "As Horas" funcionaram um pouco melhor.
Vi o filme antes de ler o livro, e é bem fiel, o que já é uma grande coisa, visto que hoje existam tantas adaptações ruins na telona.
Peguei "As Horas" logo que acabei "Mrs Dalloway", queria de todas as formas melhorar minha opinião sobre o livro de Virginia Woolf, mas cai na mesma sinuca de bico. Não adianta, "Mrs Dalloway" não funcionou para mim. Quem sabe daqui três décadas...
"As Horas" foi um pouco melhor. Mesmo sendo uma releitura atual do clássico, não me convenceu como o esperado.
O livro conta três histórias que se entrelaçam: a vida de Virginia Woolf, e de duas americanas. Clarissa Vaughn e Laura Brown, personagens de ficção de alguma forma marcadas pelo romance "Mrs. Dalloway", que Virginia escreveu em 1925.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Morte Súbita - Resenha


"Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas. Bola descobriu que tem gente que fica aferrada a constrangimentos e falsas aparências, morrendo de medo que as suas verdades possam se espalhar. Ele, porém, gostava mesmo era das coisas nuas e cruas, de tudo que fosse feio, mas honesto, das coisas sujas que faziam pessoas como o seu pai se sentirem humilhadas e enojadas. Pensava muito sobre messias e párias, sobre homens que eram taxados de loucos ou criminosos, nobres marginais rejeitados pelas massas inertes".

Vamos falar de um livro que divide muitas opiniões.
"Morte Súbita", de J. K. Rowling, Editora Nova Fronteira, é um daqueles livros que põem em cheque muito que somos ou o que pretendemos ser. Faz uma levantamento crítico, cru, visceral no que é a sociedade de hoje, o que reflete em nossas atitudes, o que é "coletivo" e o que é puramente singular, construído, assinado.
"Morte Súbita" nada mais é do que a narração de vidas, de histórias numa sociedade conhecida por todos - não necessariamente assumida! -, onde reina o preconceito, o racismo, a misoginia, a corrupção. Existem passagens na história que muito nos identificamos, seja porque sofremos com isso, seja porque fizemos parte do grupo que humilhou, denegriu, mentiu - mesmo que não podemos, ou consigamos, admitir - lá no fundo sabemos muito bem qual é o grupo que pertencemos, e que atire a primeira pedra quem jamais!
J. K. Rowling nos envolve em uma história sobre a pequena e elitista Pagford. A morte súbita de um dos seus moradores, Barry Fairbrother, provoca um abalo sísmico na vida de todos e de cada um. Máscaras vão caindo, fantasmas enterrados a décadas são trazidos à tona, os nossos piores demônios dão suas caras.
A morte de Fairbrother trás aos moradores o pior de cada um, muitas histórias ganham vida, mentiras são desmascaradas e as mais duras verdades terão que serem enfrentadas.
É um livro duro, carnal. Se você trouxer para uma vida normal, cotidiana, não será nenhuma ficção, muito pelo contrário, vai doer na alma. Muitos se identificaram, em algum momento, com algum personagem.
O livro é devagar, pois estamos acompanhando a vida de um pequeno vilarejo onde nada acontece, a menos que você considere fofocas e preconceitos um fato surreal.
Um livro que recomendo!
Para refletir e se questionar. Nada melhor do que sermos auto críticos uma vez ou outra. Faz bem para a gente, faz bem para alma.

P.S. Um Olhar de Estrangeiro adverte: Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência!

Bom divertimento!
Cláu Trigo

domingo, 8 de outubro de 2017

Cartas Para Julieta - Uma Viagem Literária


"Os estudiosos creem que a peça Romeu e Julieta de Shakespeare é uma narrativa que se originou  na antiga Roma, baseada no conto Píramo e Tisbe, de Ovídio, ao mesmo tempo amargo e belo, envolvendo famílias inimigas, um amor proibido e um encontro secreto em um túmulo que termina extremamente mal. Enquanto espera por Píramo, Tisbe vê uma leoa rondando o túmulo. Temendo que as mandíbulas ensanguentadas do animal sejam prova de que ela atacou seu amante, Tisbe foge para uma caverna próxima e deixa cair seu véu. A leoa então vê o véu, e depois de farejar nele carne humana, estraçalha-o".

Sabe o filme "Cartas Para Julieta"? Então... esqueça dele quando for ler o livro.
"Cartas Para Julieta", de Lise Friedman & Ceil Friedman, Editora Seoman, nasceu entre duas irmãs que adoravam trocar cartas entre elas, até que Ceil encontra o seu Romeu e sai de Nova York para morar com ele em Verona. Numa viagem para visitar a irmã em Verona, descobrem uma carta escrita por uma francesa de 19 anos endereçada a Julieta. As irmãs não puderam resistir à vontade de investigar a questão mais a fundo.

"Querida Julieta,
Sei que vai demorar para eu receber uma resposta desta carta, mas não importa... Adoro me corresponder com uma lenda. Quando recebi sua primeira carta, senti-me elevada por uma força divina disposta a me auxiliar e amparar. Hoje preciso que me escute de novo".

A carta acima foi que levou Lise e Ceil à uma longa e minuciosa pesquisa. 
Conheceram as secretárias de Julieta, um grupo de mulheres que durante sete décadas e ainda hoje, quase que ininterruptamente, vem respondendo com todo o carinho às cartas para Julieta. A dedicação delas para manter a lenda viva as faz passar alguns minutos - ou horas -, todos os dias, respondendo aos pedidos de conselhos, súplicas de paixão e desejos de receber a bênção da mais romântica protagonista de Shakespeare. Julieta deixou de ser uma personagem de ficção e ultrapassou os limites da literatura para assumir os papéis de conselheira e confidente.
As cartas chegam de toda parte do mundo, com poucas exceções, todas parecem sinceras. São de adolescentes que enfrentam a censura dos pais e os sofrimentos do primeiro amor, e de adultos, jovens e mais velhos, comemorando uma amor conquistado a duras penas, enfrentando dúvidas diante da iminência de um compromisso, sofrendo por causa de uma traição ou perda, e confrontando preconceitos religiosos, políticos ou raciais.
As secretárias leem essas cartas, frequentemente as traduzem, e respondem, uma por uma, pessoalmente, à mão. São endereçadas apenas a "Julieta, Verona", todas elas chegam ao seu destino.
O livro é bem interessante e trás inúmeras "possíveis" histórias que possam ter inspirado nosso Shakespeare, e levados nossas escritoras a uma grande aventura pela cidade de Verona e sua lenda imortal.

"Querida Julieta, 
Quero saber por que a Cidade de Verona celebra o casamento de seus cidadãos apaixonados no seu túmulo, onde o amor morreu, em vez de casá-los na sacada, onde o amor nasceu?"
Giancarlo C., Treviso, Itália

O livro vem com inúmeras cartas enviadas e nos leva para uma viagem no tempo, onde um grande amor nasceu e reina até hoje nos corações de quem sofre de amor.

Boa viagem, ops, leitura!
Cláu Trigo

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Meu Querido e Velho Safado: Bukowski


"Os livros que primeiro instigaram Bukowski influenciaram seus gostos literários pelo resto da vida. Ele nunca venceu paixões e preconceitos da juventude: amar os primeiros contos de Hemingway, por exemplo, mas não ter tempo para os últimos romances; gostar de Turgenev, mas nunca sentir-se atraído por Lev Tolstói. Além disso, já adulto, pronunciava incorretamente palavras e nomes que lera na adolescência, mas que nunca ouvira. Era uma característica observada por amigos, como o poeta Miller Williamas. Segundo ele, se Bukowski entendesse que tinha cometido um erro, fingiria que fora de propósito. 'Teria sido uma fonte de constrangimento, mas ele esconderia o embaraço dizendo, 'é assim que pronuncio, diabos, e se você não gosta, pronuncie como bem quiser".

Meu querido e safado Bukowski! Como não amar esse velho safado. Impossível.
No livro "Bukowski: Vida e Loucura de um Velho Safado" (Ed. Veneta), Howard Sounes recria a trajetória de Bukowski no que viria a ser sua biografia definitiva.
A edição da Editora Veneta está simplesmente linda. Valeu cada centavo por ele. O livro trás poemas, trechos de trabalhos inéditos, desenhos e mais de 60 fotos. Além de depoimentos de amigos como Norman Mailer, Allen Ginsberg, Sean Penn, Mickey Rourke (que interpretou Bukowski no filme Barfly), Lawrence Ferlinghetti, Robert Crumb e Harry Dean Stanton.
Bukowski é assim: ou você ama ou você odeia. Não há meio termo. E eu faço parte do primeiro grupo. E depois que li sua biografia ficou bem mais claro o que foi esse poeta e sua vida. Uma vida nada fácil, diga-se de passagem.
Filho de mãe alemã e pai norte americano, teve uma vida difícil, pobre. Veio ainda criança para os EUA, teve que conviver com a guerra, a miséria, uma família desestruturada. Conheceu cedo a bebida, o cigarro, teve uma infância marcada pelo autoritarismo e agressões do pai e a veneração da mãe pela figura nazista de Hitler.
Não estudou muito, começou a trabalhar cedo e aceitava qualquer tipo de emprego que lhe garantisse, no final do dia, o seu cigarro e a sua bebida. Conhecido por seus porres homéricos, sua angústia e seus relacionamentos conturbados, se tornou um ícone da cultura pop.
Bêbado, mulherengo, vagabundo, imprevisível, Charles Bukowski transformou seu estilo de vida pautado na mais pura vadiagem em literatura.
Para quem gosta do escritor, é necessário a leitura dessa biografia. Coisas que muitas vezes nos intrigam, no livro serão respostas. Uma vida passada a limpo, eis a história desse livro.

Cláu Trigo

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mrs. Dalloway - Não Rolou Química



"Nos olhos dos passantes, na sua pressa, no seu andar, na sua demora; no burburinho e vozearia; carros, altos, ônibus, caminhões, homens-sanduíches bamboleantes e tardos; charangas; realejos; na glória e no rumor e no estranho aerocanto de algum avião sobre a sua cabeça estava isto, que ela amava: a vida; Londres; aquele momento de junho".

Já sei que serei amaldiçoada com essa resenha pelo resto da minha vida, mas vamos lá...
"Mrs. Dalloway", de nossa querida e amada Virginia Woolf, Editora Folha de S. Paulo, foi na verdade, uma leitura chata. Já li outras coisas - bem melhores - da escritora.
Já li tanto sobre o livro, tanto amor, tanta veneração, que fui lotada de expectativas, e caí do penhasco que subi.
De verdade: achei um livro chato de ler! Um personagem egoísta, problemático, sem carisma nenhum. Diversas vezes, até difícil de entender a confusão de seus pensamentos.
O livro se passa num único dia de junho, como Ulisses, de James Joyce, e a narrativa é arrastada na maior parte do tempo, por mais que ali se exponha personagens complexos, depressivos, a histeria de Mrs. Dalloway é chata demais, arrastada demais, arrogante demais. Tudo nela é demais. A única coisa de menos é sua simpatia.
Assim como a maioria das obras de Virginia, Mrs. Dalloway também foi inspirado na vida de alguns amigos.
A personagem de Clarissa Dalloway foi inspirada em sua mentora Kitty, - uma socialite que Virginia não gostava de forma alguma. E por não gostar nada de Kitty, na  cabeça de Virginia, a sra. Dalloway deveria inicialmente matar-se, ou talvez simplesmente morrer no fim da festa - uma forma de transferir sua vontade na vida real para a sua história; porém, quando recebeu a notícia que Kitty tinha falecido, Virginia decidiu deslocar o foco de sua história. A morte continuaria pairando no fim do livro, mas a sra. Dalloway permaneceria viva.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Resenha - O Outro


"E depois, quando ele deixara o Ministério, logo depois da última carta? Envergonhado, percebeu que tinha menos lembranças ainda de seu casamento e de sua família no ano de sua aposentadoria temporária. Sentira-se injustiçado, magoado, lambera suas feridas e esperara que o mundo, o Estado, o ministro, os amigos, a mulher, os filhos vissem a injustiça cometida contra ele. estava tão atento para o jeito como os outros tratavam com ele que nem sequer percebera como ela estava. Lembrou-se de sua luta contra o barulho das crianças e de seus amigos. Aquela alegria ruidosa, para ele, era pouco-caso com a sua necessidade de tranquilidade."

Eu nunca li nada do autor, mas tinha bastante interesse em conhecer algo dele por causa do filme "O Leitor", que é baseado em um livro dele. E adoro o filme!
Então, fui ver o que ele tinha escrito, e achei o livro: "O Outro", do alemão Bernhard Schlink, Editora Record. A sinopse me interessou bastante, e ainda tinha o lado bom de só ter 96 páginas, rsrsrs.
Depois de perder a esposa para o câncer, Bengt procura conforto na sua rotina simples: manter a casa limpa, se alimentar e verificar o correio. E é nessa rotina que sua vida mudará para sempre e mostrará que ela não era tão perfeita assim...
Ao ir verificar a caixa de correio, Bengt recebe uma carta de um homem que ele não conhece. E com uma caligrafia bem trabalhada, a carta contém palavras de amor para a sua falecida esposa, Lisa.
Será que a sua mulher, enquanto casados, tinha um amante? Como ele nunca reparou nisso? Disposto a descobrir a verdade, Bengt começa a responder as cartas... usando o nome da sua esposa!
A cada nova carta, ele descobre uma personalidade, um lado de Lisa que ele não conhecia, ou que ele negligenciou. Sua generosidade, sua felicidade e o quanto fez os outros rirem. As cartas do Outro são seu maior consolo e ele não resiste à tentação de conhecê-lo. Quem seria o homem que a sua esposa amou?